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Santa Cruz teve personagens na Ditadura iniciada com Golpe de 64

Publicada dia 07/04/2021 às 12:20:06

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Thaís Balielo


O Golpe Militar de 64 teve seu estopim em 31 de março e os militares tomaram o poder no dia 1º de abril daquele ano. Em Santa Cruz, o período do Golpe e os anos seguintes de Ditadura tiveram alguns personagens. O casal de historiadores Celso e Junko Prado levantaram algumas informações sobre a época que estão publicadas no blog Santa Cruz do Rio Pardo – memórias, documentos e referências.

Segundo a pesquisa do casal, o advogado e professor Amaury Cesar foi o primeiro a ter problemas, por identificar-se com o 'G-11 - Vanguarda Avançada do Movimento Revolucionário', conhecido 'Grupo dos Onze'. Outro perseguido pelos golpistas foi o comunista Dario Nelli, representante local do Jornal 'A Voz da Unidade', órgão oficial do clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Dario Nelli, o líder do 'Movimento Camponês de 1953', tinha ideologia comunista, enquanto Gentil Válio, Amaury Cesar e Wilson Gonçalves eram simpatizantes ao G-11.

Além dos mencionados, alguns professores tiveram que prestar esclarecimentos por suas opiniões contrárias ao regime militar. Um deles foi Antônio Raimundo, professor e vereador, denunciado pelo ex-prefeito Onofre Rosa de Oliveira.

“Onofre e Raimundo pertenciam à mesma agremiação política de sustentação ao Governo Militar, a Aliança Renovadora Nacional - ARENA, porém Raimundo era da facção Vermelha e Onofre do Azul, cores que realmente distinguiam os grupos partidários em Santa Cruz do Rio Pardo”, conta Celso.

Já o santa-cruzense Samuel Pereira Borba – o Samuca, foi denunciado torturador de presos políticos (Brasil Nunca Mais, 1ª edição) e membro do 'Esquadrão da Morte' (Desaparecidos Org. Brasil - Torturadores: 46). Escrivão de Polícia - DEOPS/SP, Samuca era fortemente vinculado ao coronel Antonio Erasmo Dias e ao delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury.

Um caso marcante para Santa Cruz no regime militar foi a prisão de Edjalma Dias, estudante de Ciências Contábeis e Ciências Econômicas na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, onde presidiu, por eleição, o ‘Centro Acadêmico - Leão XIII - de Economia, Contábil e Atuarias’.

Em entrevista ao Atual, Edjalma, hoje com 76, conta que deixou a cidade na adolescência e fazia seminário quando desistiu e havia voltado para a cidade. Ele estava servindo ao TG quando estourou o Golpe. Em 65 queria ir embora da cidade, já com pensamentos de esquerda foi para São Paulo estudar economia na PUC. Era o único de esquerda na economia. Então, começou a frequentar outros horários e encontrar estudantes de outros cursos. Terminou a faculdade em 68 quando houve o AI-5. Voltou para Santa Cruz em 69 e sentiu que não tinha lugar para ele na cidade.

“Eu era muito atrevido, expunha minhas ideias, fazia discurso em cima de mesa de bar. Voltei para São Paulo com a desculpa de fazer Ciências Contábeis. Tinha uma chapa de esquerda e fui candidato a presidente do Centro Acadêmico e ganhei. Fizemos um trabalho muito bom, teve ligação com samba, um papel importante para escolas de samba. Em 72 prenderam o pessoal da escola e como presidente fui preso, mas como suspeito”, diz.

Edjalma havia sido alertado da possibilidade de sua prisão e se abrigou na casa dos pais em Santa Cruz. Ele foi preso pelo amigo e conterrâneo Gerson Gonçalves Filho, militar do exército. “Eu tinha tido uma audiência com D. Paulo, cardeal Arns, pedindo a ajuda dele. Eram vários estudantes da PUC presos. Ele me alertou que eu seria o próximo. Minha estratégia foi deixar ser preso em Santa Cruz pela repercussão, o que poderia salvar minha vida. Gerson era amigo de adolescência, quando viu meu nome para ser capturado ofereceu-se por me conhecer. Foi leal comigo, não me algemou, ainda deixou um agasalho dele para eu usar na prisão. Mas mesmo assim não deixei de apanhar. Ditadura nunca mais, eles são desumanos, fascistas jamais”, exclama.

Segundo dados da pesquisa de Celso e Junko dezenas de nomes santa-cruzenses, nascidos ou moradores, constam fichados em arquivos do DEOPS. Os motivos vão desde atuação política considerada subversiva, às reuniões de grupos em clubes ou residências; ou por comungar ideias comunistas; participar, estar ou fazer companhia a pessoas notoriamente comunistas; conhecer pessoas participantes de grupos de esquerdas; expressar juízos que pudessem induzir mensagens contra o governo, ou sugerir pensamentos revolucionários; confeccionar cartazes, panfletos ou publicações gráficas de manifestos, próprios ou de outrem, contra o governo; entre outros.

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