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“O arroz continua sendo um produto muito barato”, diz Mário Pegorer

Publicada dia 22/09/2020 às 11:14:41

Pedro Figueira

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Diego Singolani


A embalagem de 5 kg de arroz de primeira já ultrapassou a marca dos R$ 25 na maioria das prateleiras dos supermercados de Santa Cruz do Rio Pardo. Em outros estados, o preço chegou à casa dos R$ 40. O aumento do preço do arroz no Brasil tem sido impulsionado pela falta do grão. Grande parte do que foi produzido acabou exportada com o câmbio em alta, o que foi mais rentável aos produtores. Em mercados de algumas cidades do País, a compra de pacotes de arroz já está sendo limitada aos clientes, como na capital mineira, Belo Horizonte, e em Campinas (SP).

Em entrevista recente à rádio 104 FM, Mario Pegorer, gerente da Guacira Alimentos, e diretor da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), detalhou a conjuntura global que levou ao cenário de alta no preço. Entre os meses de março e maio, quando ocorre a principal safra de arroz no Brasil, o país teve uma produção considerada boa, suficiente para abastecer o mercado interno. Porém, neste mesmo período, houve uma grande desvalorização do real. “Foi a moeda mais desvalorizada no mundo no primeiro semestre”, lembra Pegorer. Para completar a conjuntura, os principais países exportadores do produto, como EUA, Índia, Vietnã e Tailândia, estavam na entressafra, o que diminuiu a oferta da comódite. “Com a mega desvalorização do real, o arroz brasileiro se tornou o mais barato do mundo, favorecendo a exportação. O consumo de produtos básicos, como o arroz, explodiu durante a pandemia”, diz o executivo.

A alta do dólar frente a moeda brasileira também impactou na importação de arroz para o mercado interno. “O Brasil exporta bastante. Talvez não tanto em um período tão curto como agora. Mas também sempre importou de terceiros mercados. No primeiro semestre, com o dólar em alta, as importações se inviabilizaram. Deixamos de importar de 60% a 70% do produto. O arroz de fora ficou caro”, explicou Pegorer. 

Em suma: o Brasil teve no primeiro semestre o arroz mais barato do mundo, sem concorrentes, com a demanda global pelo produto em alta, no contexto da pandemia, e ainda deixou de importar o cereal justamente porque o dólar “nas nuvens” tornava a operação inviável. Resultado: grande parte da produção nacional foi para fora e a oferta interna diminuiu. “Entramos no segundo semestre com a demanda regular aqui dentro, mas a oferta se restringiu. Os produtores tinham quantidades pequenas, as indústrias também ficaram desabastecidas. Estoques baixos, lei de mercado, oferta e demanda. Elevou o preço do arroz de forma abrupta”, afirma Pegorer. Outras comódites, como a carne e a soja, também foram impactadas pelo câmbio e tiveram alta nos preços para o mercado interno devido ao aumento das exportações.

Alguns economistas criticam o Governo Federal por não manter estoques reguladores abastecidos para intervir em um momento peculiar como este. Mario Pegorer, entretanto, vê com ressalvas medidas intervencionistas. “Sou muito mais adepto da zero interferência do governo na economia. A intervenção não é benéfica. Ela pode vir em algum momento de maneira equivocada e causar distorções muito profundas. Hoje estamos pagando mais caro no arroz, mas se estivéssemos mantendo uma política de estoque regulador bancada pelo Governo Federal, indiretamente quem estaria pagando essa conta é o próprio consumidor. Eu te garanto que o custo da manutenção dos estoques são muito mais elevados do que você pagar dois ou três meses mais caro no arroz. É uma política muito cara”, questionou Pegorer.

Mário defende a solução adotada pelo governo que foi retirar as taxas de importação sobre o arroz. “É o mecanismo que o governo tem, a importação de terceiros mercados, aí você vai regulando. Você não cria artificialismos para aumentar ou diminuir a oferta, ela passa a ser natural”, diz.

Arroz pode subir mais

Na avaliação de Mário Pegorer, as medidas adotadas pelo governo não irão abaixar o preço do arroz, mas sim estancar sua subida. O executivo afirmou, inclusive, que o país ainda não atingiu o preço máximo do produto nos supermercados. “Dependendo da marca, podemos ter um aumento no valor máximo no ponto de venda de mais 15% a 20%”, disse.

Mario não contesta que a alta abrupta no preço de um item da cesta básica pode impactar muitas famílias. Porém, ele é enfático ao afirmar que há excessos por parte da mídia na cobertura do assunto. “O brasileiro consome, em média, 35 kg de arroz por ano. Se dividirmos por mês, nos preços que imaginamos que o produto possa chegar, dá R$ 14,50. É o valor que cada brasileiro vai gastar por mês. Isso dá R$ 0,50 centavos por dia, ou R$ 0,25 centavos por refeição. Um pacote de R$ 40,00 dá para a pessoal consumir por 40, 45 dias. Para comparar, um hambúrguer, que custa uns R$ 35,00, você consome em 10 minutos. Existem outras coisas que são muito mais caras e não é feito este sensacionalismo”, pondera. “Ficou caro, concordo, é um produto de cesta básica, pesa mais para algumas pessoas do que parta outras, mas são R$ 0,25 centavos por refeição, não é um absurdo. Ficou mais caro comparado com o que estávamos acostumados, mas o arroz continua sendo um produto muito barato”, afirmou Pegorer.

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