< Voltar

Rejeição recorde no BBB levanta questão sobre “cancelamento”

Publicada dia 02/03/2021 às 10:24:39

Pedro Figueira

rejeicao-recorde-no-bbb-levanta-questao-sobre-cancelamento-

Thaís Balielo


A rapper Karol Conká foi eliminada do Big Brother Brasil 21 com 99,17% dos votos e entrou para a história pelo índice de rejeição no mundo todo. Suas atitudes na casa levaram o público a decretar seu “cancelamento”. No entanto, a psicóloga Lívia Maria Ortega nos leva a refletir até que ponto a atitude do público não é parecida com o que ela fez dentro da casa.

Karol foi acusada de xenofobia contra Juliette e constantemente criticou a paraibana. Indignada com o fato de Lucas planejar um grupo que priorizasse os participantes negros, o proibiu, aos gritos, de sentar à mesa com ela e depois o humilhou em rede nacional. Ele foi isolado na casa e desistiu do programa. Enciumada por causa de Arcrebiano, espalhou que Carla Diaz estava a fim dele e não de Arthur. Por vezes, distorceu o discurso de vários colegas, como Camilla de Lucas.

“Karol deixa o ‘BBB’ com enorme rejeição, mas isso não justifica qualquer linchamento que ela venha a sofrer do lado de fora. Ela precisa ter o direito de aprender com seus erros e promover uma autocrítica. Um cancelamento sumário impede qualquer tipo de evolução. Ela só vai conseguir refletir a respeito de tudo que fez, a partir do momento que não for julgada. Quando julgamos, rompemos toda a ideia de que é possível mudar. Não tem como mostrar para ela que existem outras formas de lidar com pessoas que pensam diferente, se fizermos o mesmo que ela fez”, argumenta a psicóloga.

Lívia Maria analisou de forma microssocial este comportamento e explicou que se trata de um olhar infantil com necessidade de dividir as coisas em boas ou más. “O avesso da cultura do cancelamento é a cultura da aprovação. Enaltece a pessoa, a personalidade, o artista como se fosse alguém perfeito, um deus. Aí uma atitude que vai contra essa imagem idealizada já faz a pessoa ser cancelada. Coloca a pessoa em um patamar sobrehumano, uma deusa superpoderosa, e, a partir do momento que ela erra, é rebaixada a um nível de marginalização. É uma inabilidade em interpretar as pessoas como humano, passível de erro”, aponta.

Em uma leitura macrossocial, Lívia analisa que existe a questão de ser visto como justiceiro. “É uma onda social de fazer justiça com as próprias mãos. Movimentar a massa para fazer justiça. Essa justiça vem de um discurso ideológico. Isso te dá um superpoder. Se está em um grupo que pensa assim, parece que você está certo e o resto do mundo está errado. Pessoas ao redor pensando igual valida aquilo que estou pensando”, pondera.

No caso específico da Karol Conká, Lívia lembra que ela pregou e agiu de forma para cancelar o outro participante. “Agora aqui fora ela está recebendo a mesma coisa das pessoas que não aprovaram aquilo que ela fez. O quanto que essa atitude não faz com que nos tornamos igual a ela? Tudo que me remete a uma necessidade de punição, vem de um recado para mim mesmo, porque a necessidade de punição é minha. É um recado para mim mesmo não me comportar daquele jeito, mas já estou me comportando. Eu preciso puni-la para que eu entenda, inconscientemente, que eu não posso fazer aquilo, mas na verdade está fazendo”, argumenta.

Lívia disse não ter dúvidas que Karol Conká irá precisar de um apoio psicológico agora que saiu da casa, tanto para entender este cancelamento que está passando quanto para refletir a respeito do comportamento dela. A psicóloga cita Caetano “porque Narciso acha feio tudo o que não é espelho” para exemplificar a situação. “Vejo no comportamento de quem cancela e da própria Karol um narcisismo muito grande. Uma incrível inabilidade de lidar com pessoas que pensam e agem de forma diferente daquilo que você acha certo. Este embate só inflama as coisas e não resolve. É preciso compartilhar ideias e comportamentos de um jeito pacífico, brando. Vejo uma inabilidade de lidar com discursos que não concorda. Aquilo me agride, aquilo é feio para mim, pois não é meu reflexo”, exemplifica.

Lívia lamenta que tudo isso acaba caindo no velho discurso da sociedade polarizada. “Ou é um ou é outro, ou está comigo ou está contra mim. Sempre me opondo aquilo que não faz parte da minha panela. É uma inabilidade e imaturidade se comportar desta maneira. Nosso olhar de julgamento, precisa entender o outro. Teve a questão da Karol que criticou a paraibana que falava alto. É uma forma de rebaixar aquilo que não está dentro dos nossos padrões”, aponta.

A eliminação de Karol Conká na terça-feira foi a maior audiência do BBB dos últimos 10 anos. As redes sociais só falavam deste assunto e o “cancelamento” dela ultrapassou o jogo e o virtual. Sua família foi ameaçada, o filho está sofrendo ataques. Ela já deu diversas entrevistas e atribuiu suas ações a um surto e afirmou que irá buscar terapia para tratar seus traumas.

Compartilhar nas redes sociais