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Como conviver com a solidão?

Publicada dia 22/04/2020 às 09:57:50

Arquivo Pessoal

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Diego Singolani


A solidão é um tema universal. No contexto da sociedade contemporânea, se tornou recorrente objeto de estudo e debate, tendo em vista sua relação com o individualismo característico do homem moderno. Em meio à pandemia do novo coronavírus, a discussão sobre a solidão tem se estabelecido principalmente sob a perspectiva do isolamento social. O Atual convidou a psicóloga Estefânia Mariano Lorenzetti, especialista em Transtornos Alimentares pela Faculdade de Medicina da USP - São Paulo e Especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, para refletir sobre o assunto. Confira a seguir os principais trechos da entrevista: 

Atual - Quais os sentimentos mais comuns quando a pessoa é inserida num contexto de estresse permanente e confinamento?

Estefânia - Ansiedade, tristeza e mágoa. O coronavírus afetou os negócios e não sabemos se as vítimas serão somente as pessoas ou a economia, ou ambas. Afetou a percepção de progresso, a percepção que temos do mundo, a confiança que tínhamos num futuro contínuo. Então, de repente, meio que como um tsunami, somos invadidos por incertezas. O que temos é o hoje e o agora, pois o amanhã é incerto. No meio disso tudo, dessa incerteza e inconstância das situações, vemos brotar a tristeza e a mágoa, pois não somos preparados para aquilo que não está planejado para a inconstância.

Atual - Há uma distinção entre os conceitos de solidão e solitude, pelo menos no campo da linguagem. A psicologia também se debruça sobre isso e, se sim, sob qual perspectiva?

Estefânia - Toda doença tem o fato biológico e a leitura que fazemos do fato biológico. Precisamos pensar como estamos reagindo, de forma metafórica, a essa pandemia.

Uma mesma situação pode ser vivida de maneira diferente para pessoas distintas. É a forma como a pessoa olha a situação; Para isso, é preciso levar em consideração a constituição química, sistema de crenças e o contexto onde a pessoa está inserida. 

A solidão precisa ser uma oportunidade para que eu encontre a solitude. A solitude é a capacidade de perceber no isolamento quem eu sou e quais os meus valores. É basicamente isso que fazemos dentro de um processo psicoterapêutico. Guiamos o indivíduo ao encontro dele mesmo, independente da abordagem, umas mais técnicas outras mais filosóficas, porém, o processo terapêutico é isso: saber que lugar eu ocupo no mundo.

Sem isolamento não existe a chance de pensar. Usemos como referência símbolos religiosos:  Maomé, na caverna, recebe a visita do anjo Gabriel e também é no deserto que Abraão recebe a sua promessa. Temos Moisés, no monte Sinai, que também se isolou antes do episódio da sarça ardente. Jesus passou isolamento no deserto. Não se trata  da ausência de pessoas, mas da atitude interna. Porque solidão a dois é a mais comum no nosso mundo.

Atual - Quais as orientações profissionais para que a pessoas consigam superar esta fase preservando sua saúde mental?

Estefânia - Transformar dificuldade em oportunidade é o grande segredo da parábola da "ostra fazendo pérola". Não é o caso de tranquilidade absoluta e nem de histeria absoluta. As duas coisas prejudicam a ação, e a ação é tomar a decisão e ir adiante, ou seja, eu preciso me proteger e preciso planejar as atividades do meu dia. É preciso focar no que temos no presente, no hoje, pra essa semana. Desligue a televisão, coloque horário para ver as noticias e veja de fontes confiáveis, não fique a todo o momento em grupos de redes sociais consumindo notícias sobre a pandemia, isso faz com que nosso cérebro fique saturado de coisas desnecessárias. Crie uma rotina, a preencha com coisas que você goste de fazer. 

Atual - Você tem oferecido atendimento pela internet durante este período de quarentena. Gostaria que você compartilhasse um pouco dessa experiência e das experiências que chegaram até você.

Estefânia - Quando me disponibilizei para fazer atendimentos online, permitido pelo Conselho Federal de Psicologia, eu não imaginava que tantas pessoas viriam me procurar, pessoas que moram no exterior principalmente. Hoje eu atendo brasileiros que estão na Itália e Japão, pessoas que há 45 dias não colocam o pé para fora de casa. É angustiante para mim enquanto profissional, pois essas pessoas relatam que tinham vida normal, saúde mental normal e que agora começam a perder o padrão de sono, a fome e os interesses pelas coisas. Relatam uma perda de esperança, pensamentos disfuncionais e muita tristeza, sentimento  de medo/incerteza em relação ao futuro. Algumas dessas pessoas estão sem a família, estão sozinhas e ao ligar a tv encontram notícias catastróficas. O que foi feito com elas é primeiro estabelecer uma rotina e regular o padrão de sono e fome. Preencher o dia com atividades que tragam prazer e que eles tenham interesse.

Tenho aplicado técnicas da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) e isso faz com que a pessoa fique presa no presente sem pensar tanto no futuro incerto, isso tem feito com que as alterações de humor sejam menores.

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