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“Parei de fumar durante a pandemia”

Publicada dia 15/09/2020 às 10:48:45

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Diego Singolani


Enquanto o mundo ainda tenta descobrir a melhor forma de combater a Covid-19, outra pandemia, assim classificada pela própria Organização Mundial da Sáude (OMS), faz milhões de vítimas fatais todos os anos, há várias décadas: o tabagismo. No último 29 de agosto, quando foi celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo, o tema tabagismo e coronavírus foi o escolhido como o mote das ações de sensibilização e mobilização da população para os danos sociais, políticos, econômicos e ambientais causados pelo tabaco. A OMS tem destacado o papel do cigarro no agravamento da pandemia de Covid-19, já que é fator de risco para transmissão do vírus e para o desenvolvimento de formas mais graves da doença. O alerta das autoridades de saúde contribuiu para que vários fumantes buscassem uma mudança de hábitos em meio à crise global.

Juliana Mesquita de Oliveira, 38, parou de fumar no dia 8 de abril de 2020. A pandemia do novo coronavírus e um pedido de sua mãe, que é ex-fumante, tiveram papel decisivo para que ela encarasse o desafio de enfrentar o vício. “Eu tive H1N1 em 2009, a doença também ataca o sistema respiratório. Não gostaria de passar pelo que passei, talvez até em maior gravidade”, disse. Foram 24 anos fumando. Como a grande maioria das pessoas, Juliana começou a fumar ainda adolescente, na companhia dos amigos de colégio. “Às vezes começamos a fazer algo para se sentir aceito ou pertencente a algum grupo”, afirma.

Ao longo do tempo, Juliana tentou, por algumas vezes, sem êxito, abandonar o vício. “Logo eu corria para o cigarro. Fumava ansiosa por querer parar de fumar, é um sentimento muito confuso para alguns fumantes. Já havia tentado parar até com auxílio de medicações específicas, nada surtiu efeito. O vício era mais forte, pelo menos naquela fase”, revela. Juliana tem o chamado transtorno de ansiedade generalizada (TAG), o que parecia tornar impossível vencer a dependência química e emocional causada pelo tabagismo. “Apesar de ser um efeito passageiro, quem fuma não quer que as coisas aconteçam ao redor sem a presença do cigarro. É o famoso ‘amigo’ de todas as horas. O cigarro era uma válvula de escape”, declarou. Desta vez, porém, a história tem sido diferente. Apesar da enorme dificuldade, das crises violentas de abstinência, que envolveram insônia, tremores, vômito e choro, Juliana superou a fase crítica e se mantém afastada do tabaco desde o começo de abril. “Eu ainda sinto vontade de fumar, todos os dias, mas minha relação com cigarro mudou. O cheiro me faz mal. Se sinto o cheiro do cigarro ou do fumante, meu estômago embrulha, e tenho agradecido por isso acontecer, me ajuda a ficar longe”, afirma. Um momento marcante nesse processo, segundo Juliana, foi quando, ao sair do banho, poucos dias depois das crises de abstinência, ela sentiu o cheiro do sabonete. “Eu chorei por horas, nunca tinha me dado conta que não sentia mais cheiros. O gosto da comida mudou. E cada nova descoberta longe do cigarro me leva às lágrimas”. 

Participar de grupos de apoio na internet, onde outros ex-fumantes compartilham suas experiências, foi algo que ajudou Juliana a manter sua “sanidade’, como ela mesma definiu. Mais recentemente, ela passou a fazer terapia, que também tem colaborado na questão do vício. “Descobri que se eu encaixar coisas novas na minha vida, por 5 minutos, a cada vez que a vontade vem, consigo não pensar que naquele momento só o cigarro me deixaria contente”, diz Juliana. “Hoje posso ir a lugares onde as pessoas não fumam, sem ficar contando no relógio o tempo que falta pra sair dali e acender o cigarro. Não cheiro mais a perfume de nicotina, minha relação com treinamento físico mudou, não sinto cansaço extremo, crises de tosses, as pessoas sentem meu perfume, hálito mil vezes melhor. Até meu cachorro fica mais perto de mim, já que o cheiro fazia ele espirrar”, afirma.

Juliana diz que, apesar da luta contra o tabagismo ser difícil e constante, todos os dias longe do cigarro são incrivelmente mais felizes. Por ser uma droga lícita, que já foi culturalmente aceita, inclusive com certo glamour e elitismo no passado, o tabaco é, comprovadamente, um dos vícios mais árduos de ser enfrentado. “Fácil não é, mas é possível abandonar o cigarro. Existem grupos online, em meio à pandemia, para quem deseja abandonar o vício. Medicações específicas, que podem ser indicadas por médicos, aplicativos para celular que ajudam a monitorar os dias sem tabaco, com dicas até mesmo de exercícios para quando vem a vontade. Conversem com a família, amigos, peçam ajuda, busquem um profissional qualificado, para auxiliar nessa decisão de não mais fumar. Agradeço todos os dias por ter aceitado os dias difíceis, para aproveitar os dias mais felizes, hoje. A limpeza orgânica é gradual, mas vale muito a pena. Adiciona vida aos dias”, declarou Juliana.

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