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E quando eu me for — e eu vou —, o que deixarei de mim?

Publicada dia 11/08/2026 às 17:26:25

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Enio André Policante


Na infância e na juventude, temos a nítida impressão de que a vida não passa; o tempo parece demorar a correr. No entanto, quando crescemos e nos tornamos adultos, a vida ganha uma velocidade assustadora.São cobranças, exigências, pressões internas e externas, 
prazos e resultados. 
Tudo isso, somado a um senso de urgência sufocante, faz-nos pensar que o tempo está escasso. Parece até que algumas horas foram cirurgicamente retiradas do relógio. 
Mas não foram: as 24 horas continuam lá, implacáveis e silenciosas.
Há momentos em que nossa presunção nos faz agir como se fôssemos imortais. Nossa arrogância, soberba e a busca incessante por aprovações nos empurram para as redes sociais em busca de doses rápidas de dopamina, na tentativa ilusória de suprir um vazio existencial profundo. 
O trágico é que, enquanto buscamos validação externa, o real preenchimento e o afeto genuíno estão bem ali, à nossa disposição, ao nosso lado, nas pessoas que realmente nos amam. Pessoas que nos valorizam por quem somos, e não aquelas para as quais, em uma análise fria da realidade, somos meros utilitários de conveniência.
Pensando nessa pressa dos dias, lembro-me de ter sido atravessado pelas palavras da minha filha. 
Recentemente, ela me disse: “Papai, eu fico tão feliz porque, mesmo quando meus lábios estão sujos por alguma coisa que comi, eu posso te dar um beijo na bochecha ou na testa e você nunca reclama. Eu posso estar com a roupa suja e você me abraça mesmo sabendo que vai sujar a sua. Por que você age assim?”Olhei bem no fundo dos olhos dela e respondi: “Filha, porque o papai, ainda que o mundo tente fazê-lo esquecer, tem plena consciência da brevidade da vida. O papai sabe que o abraço de agora pode ser o último...” 
Ela baixou os olhos e compreendeu: “É verdade, papai...”Essa cena me faz recordar a história de um pai que estava com sua filha de cinco anos em um parquinho. A cada cinco minutos de brincadeira, a menina implorava: “Papai, só mais cinco minutinhos, por favor!” E o pai cedia. O ciclo já se estendia por quase uma hora quando um senhor, que observava a cena de longe, não se conteve. Aproximou-se do pai e disse em tom de censura: “Meu senhor, faz quase uma hora que essa criança pede mais cinco minutos e o senhor aceita. O senhor precisa urgentemente impor limites a ela e cortar esse ciclo.”

O pai da criança olhou gentilmente para aquele homem e respondeu com mansidão: “Eu compreendo a sua indignação, meu caro. Mas deixe-me lhe contar uma história. Essa menina tinha uma irmã gêmea que faleceu tragicamente devido a uma doença há cerca de um ano. Nós sofremos muito em todo o processo da enfermidade e da perda. Elas eram melhores amigas. Sabe, meu senhor... hoje eu daria tudo o que tenho no mundo para ter apenas mais cinco minutos com a filha que partiu, e já não posso. Mas Deus me deu essa. E por ela, eu dou quantos blocos de cinco minutos forem necessários.”Aquele senhor, impactado pela profundidade daquela resposta, baixou a fronte e chorou copiosamente.Ame hoje. Abrace hoje. Dance hoje. Ria hoje. Perdoe hoje. Brinque hoje. O amanhã é um território incerto e invisível, e você pode não ter mais cinco minutos com as pessoas que ama. Dê valor à vida e, acima de tudo, a quem te ama de forma incondicional.

Parafraseando a sabedoria eterna de Salmos 90, versículo 12: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que o nosso coração alcance sabedoria.”Que o bom Deus nos abençoe.