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Jacira Sampaio, a eterna Tia Nastácia, nasceu em Santa Cruz

Publicada dia 24/07/2020 às 09:49:19

acervo O Globo

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Diego Singolani


“Na hora em que o sol se esconde e o sono chega, o sinhozinho vai procurar… A velha de colo quente, que canta quadras e conta histórias para ninar… Sinhá Nastácia que conta história, sinhá Nastácia sabe agradar, sinhá Nastácia que quando nina, acaba por cochilar…”. Assim cantava Dorival Caymmi, sempre que surgia na tela a personagem que costurou a boneca Emília para Narizinho. A série Sítio do Picapau Amarelo, uma adaptação da obra de Monteiro Lobato produzida pela TV Educativa e Rede Globo, marcou toda uma geração que cresceu entre o final dos anos 1970 e meados dos 1980. O que talvez poucas pessoas saibam é que a atriz Jacira de Almeida Sampaio, que interpretava a Tia Nastácia, é natural de Santa Cruz do Rio Pardo. O casal de memorialistas Celso Prado e Junko Sato Prado tem se dedicado a esclarecer alguns pontos ainda obscuros da biografia da atriz e resgatar a memória de mais uma “filha ilustre” do município.

A família de Jacira viveu em Santa Cruz do Rio Pardo nos anos de 1920. A atriz nasceu no dia 28 de agosto de 1922, filha de Herculano Almeida de Sampaio e Sebastiana Ritta Santos de Sampaio. Ao todo, o casal teve 10 filhos. No início dos anos 1930, eles se mudaram para Londrina (PR), quando a cidade começava a se constituir. Evangélico, Herculano chegou a ser presbítero e professor de escola bíblica na Igreja Presbiteriana Independente de Londrina. Jacira debutou no mundo das artes cênicas com mais de 30 anos de idade, o que é considerado tardio para os padrões do meio. Sua estreia no teatro foi em março de 1956, em São Paulo (SP), com a peça João Sem Terra, de Hermilio Borba Filho. Jacira integrou a companhia Teatro Experimental do Negro, participando de diversas montagens de textos que foram sucesso de crítica e público. “Ela sempre esteve à frente das causas e aspirações do negro e na divulgação da influência negra na cultura brasileira, inclusive na culinária, participando de debates ao lado de grandes nomes da sociedade brasileira”, revela Celso Prado, a partir de publicações em jornais daquele.

Jacira Sampaio teve uma profícua carreira, atuando em mais de 25 trabalhos na televisão e também no cinema. Em 1959, por exemplo, a santa-cruzense participou do célebre filme ‘O Preço da Vitória’, de Oswaldo Sampaio, ambientado na Copa de 1958, com participações do técnico Feola, de Pelé, Gilmar, Zito, Gino, De Sordi, Canhoteiro, Pepe e Mauro, craques da seleção que conquistou o primeiro Mundial de futebol para o Brasil. Porém, sem sombra de dúvidas, seu papel mais emblemático e que a tornou conhecida nacionalmente foi o de Tia Nastácia, no programa Sítio do Picapau Amarelo, que entrou na grade da Globo em março de 1977 e ficou no ar até 1986.  Adaptada da obra de Monteiro Lobato, a história do Sítio era dedicada, principalmente, ao público infanto-juvenil. Tia Nastácia foi descrita por seu autor como “a quituteira emérita que a cultura negra trouxe para nosso acervo".

A atriz se casou aos 46 anos de idade com o construtor Dioraci Geraldo Tavares, com quem não teve filhos biológicos, mas cuidou de um enteado, que a considerava sua mãe. Jacira Almeida Sampaio morreu em São Paulo, aos 77 anos, de problemas cardíacos. Em sua terra natal, Santa Cruz do Rio Pardo, o resgate da história da atriz nunca foi promovido por autoridades públicas ligadas à educação ou cultura. “Junko e eu buscamos resgatar a história dessa mulher santa-cruzense, procurando, dentro daquilo que nos foi possível, o preenchimento das lacunas em sua biografia, eliminando dualidades e dúvidas. Jacira Sampaio, sem dúvidas, foi uma das melhores atrizes da teledramaturgia brasileira.”, afirma Celso Prado.

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