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“Um sonho dentro de um sonho”

Publicada dia 21/02/2020 às 12:19:53

Arquivo Pessoal

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Diego Singolani


“Utopia é aquilo que ainda não é”. A frase do professor José Paulo Netto subverte a compreensão do utópico como algo irrealizável em um conceito de potência; É a utopia como o possível não materializado - por ora. Foi refletindo sobre isso, que um grupo de mulheres da Vila Divinéia e do Bom Jardim, bairros da periferia de Santa Cruz do Rio Pardo, desenvolveu o projeto “Fala Vila Utopia”. As participantes buscaram traduzir em um ensaio fotográfico seus sonhos individuais e coletivos, mostrando para a comunidade e para elas mesmas, que suas aspirações habitam em um horizonte ao alcance das mãos.

A proposta surgiu em janeiro deste ano através do grupo de mulheres do Centro de Referência e Assistência Social (Cras) Betinha, no bairro São José. Desde 2016, a equipe do Cras desenvolve diversas iniciativas dentro do Fala Vila, que começou como um projeto isolado e acabou se transformando numa metodologia baseada na arte e na cultura como ferramentas de transformação e emancipação social. A coordenadora do Cras, Antiella Carrijo Ramos, conta que os primeiros passos do Fala Vila Utopia foram fruto do seu reencontro com a fotógrafa santa-cruzense Fernanda Botelho, que atualmente mora no Canadá, mas que passa uma temporada na cidade. Fernanda Botelho já participou de outros projetos fotográficos do Cras, como o Fala Vila Empodera e o Salgadinhos. “Fotografar sonhos foi a experiência mais incrível da minha vida. Eu sinto que este trabalho faz parte de um processo muito maior, que é o Fala Vila”, afirmou Fernanda. Antiella explica que, durante a pesquisa para desenvolver o conceito estético do projeto, ainda indefinido, elas decidiram trazer as mulheres da Divinéia e do Bom Jardim para participarem de maneira ativa do processo criativo. “Eu estava estudando algumas coisas sobre o conceito de utopia, como o próprio José Paulo Netto e me deparei com uma música, o Samba da Utopia (Jonathan Silva). Eu levei tudo isso para as mulheres e o projeto começou a ganhar forma”, diz Antiella.

O conceito de utopia como algo que apenas não aconteceu ainda norteou o trabalho do grupo. Como “dever de casa”, as mulheres escreveram e desenharam seus sonhos e aspirações no papel. Depois, levavam às reuniões para discutirem como transportar aquelas ideias para a linguagem fotográfica. “Nossa busca foi de construir com elas um conceito novo. Tivemos muitas discussões sobre pertencimento, protagonismo, empoderamento e sobre como o sonho individual não pode ser mais importante que o sonho da comunidade; Que a realização dos nossos sonhos individuais estão dentro da realização da coletividade”, afirmou Antiella. 

Para a construção do Fala Vila Utopia, além do trabalho conjunto da equipe do Cras e do grupo de mulheres, várias voluntárias participaram, auxiliando na produção, além de empresas que apoiaram com a confecção de roupas e acessórios para o ensaio. “Um projeto como este é importante para que as políticas de assistência social de fato cumpram aquilo a que se propõe, que é emancipar o indivíduo, a família e a comunidade, rompendo com a lógica do assistencialismo. Nós construímos uma nova história, respeitando a que já existe, mas ampliando os horizontes, conhecimentos, criando uma nova consciência”, diz Antiella.  O Fala Vila Utopia, em breve, deve virar uma exposição.

Articulação 

Para a Secretária de Assistência Social, Eliane Botelho, a arte, a cultura e o esporte, devem ser utilizadas nas políticas públicas como ferramentas de transformação social e não com um fim em si mesmas. “Devem valorizar a participação comunitária, o protagonismo, fortalecimentos de vínculos, habilidades, cidadania, enfim, realmente transformar uma realidade”, declarou. “Os projetos desenvolvidos na Divinéia e agora no Bom Jardim têm essa vertente de transformação. Todos os envolvidos têm esse olhar especial”, diz Eliane.

Outro aspecto importante é o engajamento de voluntários em projetos como o Utopia. A iniciativa é vista de maneira positiva pela administração. Segundo Eliane Botelho, todas as pessoas que quiserem ajudar serão bem vindas. “Elas podem procurar diretamente as coordenadoras dos equipamentos ou falar comigo na secretaria”, afirmou. 

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